Republicando:

Forrest Gump: uma personagem de Peter SloterdijkProvavelmente o filósofo alemão assistiu o Forrest Gump, porém creio que na época ele não pensava em bolhas, globos e espumas. Porém a personagem é extremamente sloterdijkana. Talvez o subtítulo O contador de histórias não seja o melhor. Melhor seria o pagador de promessas.

Resumindo, o filósofo Peter Sloterdijk diz que o homem é sim ser do dentro, no caso, dentro de esferas imunológico-ressonantes. Mas o que são esferas? Explicando em poucas palavras, a esfera é um espaço surreal de no mínimo dos polos imunológico-ressonantes. Os polos se imunizam enquanto ressoam e com isso protegem-se do aberto, o amedrontador “fora”.

A ressonância está para a imunização como o coçar está para a ferida. Quanto maior a ressonância entre os polos a imunização aumenta e torna mais profundo o foço entre os polos e o perigoso “aberto”. A palavra “entre” aqui é fundamental, pois a filosofia de Sloterdijk se funda no espaço entre, nunca sobre os polos. Os polos são fruto da ressonância no entre.

Aqui entra Forrest Gump. Um menino como os outros, pelo menos segundo [a promessa de] sua mãe. Ela faz o papel da mãe-suficientemente-boa. Enquanto a garotinha, paixão da vida dele, fecha a quase perfeita bandinha de que o filósofo alemão diz que precisamos.

O primeiro polo com que nos relacionamos é o acompanhante uterino, dele que surge nossa primeira ressonância. O segundo é o nosso gênio da guarda, que no caso de Forrest trabalhava muito e arduamente! Apenas o terceiro é a mãe. O quarto deveria ser o pai e o quinto – que fecha a bandinha a que chamamos Eu – é o amiguinho, colega, parente, etc.

Fiquei pensando sobre por que o Forrest perdeu o pai. Lembrei-me a história de Eros. Eros é filho da Penúria (mãe) com a Astúcia (pai). Forrest não tinha o pai, Jenny perdera a mãe.

A falta que Forrest tinha da Astúcia lhe obrigou a acreditar na promessa da mãe e esforçar-se para ser como os outros. Curiosamente a única fraqueza de Forrest era na coluna. Logo esta que é feita do mesmo material que o cérebro, ao qual costumamos atribuir a Astúcia.

Forrest me lembra mais uma vez de Peter Sloterdijk. O filósofo, que usa muito da antropologia, concebe o homem como um Ser criado a leite com pera. O homem surgiu como filho defeituoso de um ancestral primitivo. Normalmente os filhos defeituosos são descartados – todos os animais fazem isso. Porém por algum motivo a “mãe” deste ser – que nascera sem pelo, o que o tornava diferente dos irmãos – cuidou do garoto.

Provavelmente porque um isolamento proporcionado pela natureza ou pela comunidade desta “mãe” primitiva permitiu que esta não tivesse que fazer mais nada a não ser cuidar dos “filhos”. O garoto, como era mal nascido, tinha dificuldade de aprendizagem. Por isso ele ganhou a habilidade de aprender a vida toda – diferente dos irmãos que aos dois anos já haviam aprendido tudo o que era necessário.

A condição difícil do moleque junto com a “dedicação” da “mãe” permitiram que ele se tornasse mais forte, insuflado pela promessa da progenitora. A deficiência de aprender pela vida toda permitiu a espécie que começara naquele garoto se proteger.

Talvez a ausência de pelos ou qualquer outra coisa que o diferenciasse dos irmãos símios permitiu que o garoto, mais “belo”, continuasse sua “espécie” – Sloterdijk contesta Darwin quando a este dizer que a seleção sexual se dá pelo mais adaptado.

A “espécie” deste moleque “mimado” pela mãe usou da deficiência intelectual com que nascera para construir tudo o que conhecemos que concerne à espécie humana.

Aí está Forrest Gump. Um ser que pela deficiência formou-se Forrest Gump. Quem é Forrest Gump? Ele membro responde, Forrest Gump quer ser Forrest Gump. Quer ser si mesmo.

Como se dá esse processo. A mãe de Forrest ganha dinheiro alugando a casa. Ela não precisa sair da sua residência. Tem o tempo INTEIRO para dedicar ao garoto. Mesmo que este seja deficiente da Astúcia ela pode ensiná-lo. Ensiná-lo. Ensiná-lo. Ensiná-lo. Ensiná-lo. Ensiná-lo. Ensiná-lo. Ensiná-lo. Ensiná-lo. Ensiná-lo. Ensiná-lo. Ensiná-lo. Um dia, pela prática de ouvir, ele aprende alguma coisa, alguma coisa. Pelo menos a contar histórias… para cumprir a promessa de sua mãe!

Da placenta surge o gênio, do gênio a mãe, da mãe a amiga, da amiga o colega soldado, do colega o tenente. E nesta prática de exercícios de ressonância é que Forrest Gump pode se tornar o que tanto deseja. O que forma o homem é sua prática.

Ninguém desconfiou que o que Forrest fez a vida inteira fora praticar, praticar, praticar? Com exercícios que cada vez mais aumentavam seu grau de perigosidade. As pedras evoluíram às bombas. O moleque evoluiu ao soldado. Com nada mais que a prática diária de correr.

Forrest Gump de promessa à promessa tornou-se si mesmo. Quem é Forest Gump? Corredor! O que poderia fazer ele com a vida perante o sumiço do amor de sua vida? Correr! Ora, corredores correm!

Aqueles que não eram mal nascidos, os que sabiam mais que Forrest Gump não se tornaram nada. Seguiram-no. Um dia ele parou de correr – porque estava cansado! Aqueles que não se tornaram nada não sabiam o que fazer da vida.

Forrest Gump sabia. Aliás, se tem uma coisa da qual ele entende – como o próprio diz – é do Amor… o velho deus Eros! Cada exercício permite o outro mais complexo. Quando o amor da vida dele se foi, deixou o pequeno Forrest, um ao outro continuaram a ressonância.

No primeiro livro de sua trilogia Esferas. Slotedijk começa com a imagem de uma criança insuflando uma bolha de sabão. Quem teria insuflado a criança? O filme termina com uma cena parecida. Forrest Gump é a pena que voa. A pena que voa é Forrest Gump.

Pedro Possebon, 12 de outubro de 2015, Santo André

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s